Tecnologia de “deep fake”: perigo à vista

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Gabriela Barile Tavares – é especialista em direito eleitoral pelo Instituto Brasiliense de Direito Público

As “fake news” representaram um grande problema nas eleições de 2018, não obstante os esforços realizados pelo Tribunal Superior Eleitoral a fim de coibir a disseminação das notícias falsas. Vale ressaltar que este não é um problema exclusivamente brasileiro, mas um fenômeno mundial. Historicamente, há registros de noticias falsas na Roma Antiga, a diferença e notoriedade que o tema ganhou na atualidade, decorrem da rapidez que a internet impinge a disseminação.
Outro problema que tira o sono da comunidade jurídica, pois, poderá agravar o estrago já causado pelas “fake news” é a tecnologia de “deep fake”. O termo em inglês traz a fusão da expressão “deep learning” que em português significa “aprendizado profundo” (uma técnica de “machine learning” utilizada para que computadores aprendam a seguir determinados padrões) e “fake” cuja tradução é falso (a).
A tecnologia de “deep fake” vem adquirindo sofisticação espantosa. A técnica que era dominada somente especialistas, hoje se encontra disponível num simples aplicativo da Sansung, conforme divulgado pela Super Interessante em abril de 2019. Mentiras prejudiciais não são novidades, mas a habilidade de distorção da realidade deu um salto exponencial com o advento desta técnica, capaz de combinar fala a um vídeo já existente ou criar áudios e vídeos de pessoas reais, dizendo e fazendo coisas que nunca disseram ou fizeram. É o requinte em criar mentiras cada vez mais realistas e de difícil detecção.
O uso benéfico da tecnologia de “deep fake” é sutil, mas existe e se restringe ao uso na educação e nas artes, por exemplo. No entanto, seu potencial maior é o destrutivo, que poderá causar danos irreparáveis a indivíduos e a sociedade, seja no ambiente de trabalho, na vida pessoal, ou ensejando crises políticas, diplomáticas, descredibilizando instituições e manipulando o resultado de eleições.
Com o período eleitoral exíguo, o efeito das “deep fakes” pode ser dramático. A criação de falsificações em áudios e vídeos de alta qualidade e persuasão poderão injetar na sociedade crenças equivocadas sobre questões políticas e sobre candidatos especificamente, sabotando assim, a lisura do processo eleitoral e influenciando no resultado das eleições. A ameaça ao resultado do pleito é real e se tornará mais nociva, se o autor da “deep fake” for capaz de fazê-la circular anonimamente na internet, sem que a vítima possa desmascará-lo, o que geralmente ocorre.
Diante desta nova era de distorção da realidade, é necessário mapearmos o que poderá ser feito, utilizando a informação e a educação como principais aliadas. Quando se depararem com um conteúdo que destrave a alavanca da sua curiosidade em demasia, provoque reações de espanto ou indignação muito fortes, antes de compartilhá-lo verifique a fonte. Se não encontrá-la, não compartilhe. Ainda que seja crível e convincente, o conteúdo poderá ser falso! Lembrem-se disto. Precisamos proteger nosso convencimento destas mentiras tão bem elaboradas.

Gabriela Barile Tavares é especialista em direito eleitoral pelo Instituto Brasiliense de Direito Público

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